Publicado por: Tatiane Ribeiro | janeiro 31, 2009

Líderes de base discutem financiamento público para movimentos populares

Para líderes da Central dos Movimentos Populares (CMP), financiamento público é solução para conquista da autonomia dos movimentos

Por Camila Souza Ramos


A chegada de um ex-operário ao poder ainda mexe com o imaginário dos líderes populares no Brasil e coloca em xeque as posturas dos movimentos sociais diante do governo, principalmente aos que fizeram parte das bases para que Lula lá se tornasse realidade. O que se ouve como pano de fundo é a necessidade da conquista de uma real autonomia financeira e dos partidos para evitar a ingerência dos governos e partidos sobre os movimentos. Este foi o tema central da discussão sobre as relações entre movimentos sociais, governos e partidos, ocorrida hoje, 30, no Fórum Social Mundial.

Para muitos líderes da CMP, é preciso que os movimentos populares lutem pelo financiamento público. Conforme argumenta Cristiane, militante da CMP, lutar por esse tipo de recurso não se trata de ser cooptado pelo governo, pois a luta é por um recurso que vem do imposto pago pelo cidadão, e que retornaria ao cidadão representado pelo movimento.

Houve quem defendesse o autofinanciamento dos movimentos como única forma de independência, de forma que os movimentos pudessem criar projetos para sua sustentabilidade.

No entanto, os defensores do financiamento público argumentam que o trabalhador já está muito sobrecarregado de impostos e pagamentos, e que o dinheiro público deveria estar a serviço da população, incluindo os movimentos sociais.

Outra preocupação é a de autonomia com relação aos partidos. Segundo alguns militantes da CMP, os partidos possuem metas e estratégias bem determinadas, e quando um movimento se fecha numa linha de um projeto partidário ou de um governo, ele se perde em seus próprios objetivos.

Para muitos, o papel dos movimentos agora é traçar diretrizes para os governos e partidos, e não o contrário. Membros de conselhos municipais presentes defenderam o papel de protagonista para os movimentos na elaboração de políticas públicas, como já ocorre com o movimento sindical e as associações de bairro. Estas, como foi lembrado, surgiram na verdade como articulação política do antigo MDB nos anos 1980 para criar uma base orgânica para o partido. As associações de moradores, segundo Saulo da CMP de Brasília, já tiveram tanta força que muitas ditavam as políticas a serem adotadas pelas prefeituras. O movimento sindical também é exemplo de mobilização popular que tem amplo diálogo com o governo na elaboração das leis trabalhistas e políticas públicas.

A ativista Rosa, uma das fundadoras da CMP em 1993, também lembra do Estatuto das Cidades, que segundo ela foi resultado das intensas mobilizações para a construção das cidades.

Mas houve quem atentasse para as políticas públicas planejadas pelos governos para aproximarem-se dos movimentos sociais, como no caso do orçamento participativo, criado pelo PT. No entanto, Rosa critica a estratégia de ação de sua implementação, que em sua opinião só se deu de forma plena na prefeitura de Porto Alegre.

Críticas

O que alguns militantes da CMP criticam é a falta de ação estratégica dos movimentos populares, ponto que acaba sendo o forte dos partidos. Ainda assim, Saulo cita o próprio exemplo do PT como resultado de uma articulação estratégica de diversos movimentos sociais numa postura de lutar pelo espaço da política pelas eleições, principalmente porque eles não se sentiam representados pelos partidos existentes na época. Porém, o líder Afonso, também da CMP, acredita que mesmo com a tomada do poder, o Estado ainda é burguês e ainda são necessários avanços.

Outra grande crítica feita pelos próprios militantes com relação aos movimentos foi com relação às rusgas internas e com outros movimentos. Para Cristiane, existem duas influências que precisam ser combatidas dentro das organizações populares: a anarquista, que nega qualquer diálogo com o governo, e a stalinista, que cria uma cultura de centralização e abre uma crise de autoritarismo dentro do movimento. Marilde, outra militante presente no debate, acredita que essa relação de autoritarismo é fonte de um imaginário de poder criado no capitalismo e que os movimentos sociais não foram capazes de mudar. Imaginário este que tem acabado por afastar as lideranças políticas de suas bases em nível federal e mesmo local.

Esta luta pelo poder acaba atrapalhando, conforme apontado por Marilde, as prùorpias relações entre os movimentos, que têm muitas lutas iguais mas não conseguem estar juntas na mobilização. “Se queremos um mundo melhor, temos que somar”, defende.

Aristides, do interior de Rondônia, dá diagnósticos similares para o que se identificou no debate como uma atual fragilidade e dispersão dos movimentos populares. Para ele, a ganância; o corporativismo e a corrupção impedem as organizações de se articularem internamente e com outras organizações.

José Luis, do diretório nacional do PT e funcionário da Eletronorte, conta que encontra muita dificuldade de conversar com os movimentos sociais porque, por exemplo, em alguns bairros acaba tendo maios de 40 associações de moradores, tornando impossível o diálogo com todas e inviabiliza também a legitimidade das negociações, já que por vezes há rixas entre as organizações.


A política e o feijão na panela de pressão

“A CMP foi fundada no meio da onda neoliberal em 1993, e as ações contra o governo FHC se confundiam com a luta contra o sistema capitalista”, relata Afonso. Com a chegada de Lula ao poder, “houve um impasse entre lutar contra o sistema e apoiar governos de esquerda. Era preciso tomar cuidado para não desestabilizar o governo popular na luta anti-capitalista”. De acordo com Saulo, hoje os movimentos populares estão mais amadurecidos, mas não podem deixar de pressionar o governo. Como o militante Francisco compara, “política é como feijão na panela de pressão, você coloca lá dentro e tem que pressionar”. “Mas é uma luta lenta”, considera. “Estamos construindo nossa muralha da China, que não é para nós, mas que tem que começar conosco”. Pertencente ao diretório nacional do PT, Gegê concorda e membra que as transformações sociais reais devem começar de baixo para cima, nas bases.

Francisco ainda coloca que as transformações, no entanto, são “frutos de lutas diferentes”, e que é preciso aprender a respeitar a diversidade na busca por algo em comum: “um mundo melhor”. “O FSM tem que ensinar o acadêmico a não menosprezar o empírico, os saberes dos outros. Não existe supremacia de saberes, existem diferentes saberes”, completa.

Anúncios

Responses

  1. […] Líderes de base discutem financiamento público para movimentos populares […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: