Alta cúpula do Psol discorda em termos básicos sobre como se fazer a revolução no mundo e na América Latina
Por Tatiane Ribeiro
O que deveria ser um painel da Fundação Lauro Campos, “Os desafios da esqurda latino-americana no atual período”, acabou se transformando em uma discussão sobre os próximos passos do Psol (Partido Socialismo e Liberdade). Autodenominando-se como o “partido da revolução”, dirigentes da alta cúpula fizeram suas falas entre outros ativistas de esquerda da América Latina, falando sobre como fazer as mudanças necessárias no país para se chegar ao socialismo marxista.
O único concenso era sobre a atual crise financeira. Citada como a prova de que o capitalismo não é o modelo ideal, ela foi colocada como ponto de partida para se pensar em revolução. Mas como fazê-la diante do atual quadro polítco do continente? João Batista Araújo (Babá) falou sobre a importância de um rompimento total com o atual sistema, e que para se fazer o socialismo é necessário romper com todas as empresas, nacionais e transnacionais, que são imperialistas e anti-socialistas. “Não tem jeito, enquanto houver empresa imperialista, não há socialismo”. Ele também falou sobre a farsa de se chamar a China de socialista, já que essa oprimia seu povo, faminto e em regime de semi-escravidão.
Já Martiniano Cavalcante disse que não se podia achar que a revolução ia acontecer do dia para a noite. Para ele, não dá pra seguir o modelo bolchevique (citado por Babá), já que o momento político é outro. “Os bolcheviques estavam num momento de entre-guerras, em que o campesinato estava na miséria total e interessava aos burgueses o fim do czarismo. Não podemos comparar com o que vivemos hoje”, disse ele.
Ambos falaram que o partido está bastante unido e que discordâncias são normais dentro de partidos, principalmente de um tão novo. O Psol completa, esse ano, 5 anos de existência, após rompimento de uma ala considerada mais extrema do PT. Além deles, dirigentes de movimentos sociais e políticos de diversos países, como Argentina, Bolívia e Venezuela, falaram sobre a situação da esquerda em seus países e sobre a necessidade de união dos movimentos de toda a América Latina pela soberania dos países e do socialismo.
O não-socialismo latino-americano
Outro ponto de discordância dos dois, que demonstra as diferenças de alas do partido, é sobre a atuação de governos de esquerda como Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa. Para Babá, esses governos não estão construindo o socialismo, já que continuando atuando com empresas capitalistas dentro dos seus países, além da situação bastante contraditória do líder sindical Orlando Quirino, que foi mandado embora de uma empresa estatal “por ter criticado o governo”, como citou Babá.
Babá diz ainda que o governo Chávez está praticamente a serviço do imperialismo, já que não segue com políticas realmente socialistas. Ele criticou o apoio do presidente ao governo Lula, chamando-o de “hermano”. “No FSM de Porto Alegre, a gente batia palma para cada coisa que o Chávez dizia. Mas aí tivemos que ouvir, depois de todo um discurso de esquerda, ele chamar o governo traidor do PT de irmão”, citou ele.
Ainda sobre isso, ele disse que a ruptura não pode ser feita aos poucos, como os atuais governos latino-americanos de esquerda estão fazendo (ou dizem que estão). Para se discutir o socialismo, é preciso fazer como a Revolução Cubana que, mesmo a ilha estando hoje com graves problemas financeiros provenientes do embargo econômico, sobrevive há 50 anos. Ele citou, também, grandes nomes do comunismo, como Lênin, Guevara, Trotsky e Fidel. Uma das militantes que estava assistindo o painel disse, posteriormente: “ele está parecendo do PSTU. Se a gente criticar todo mundo, o que vamos construir? Vamos desconstruir tudo para que? É claro que o Chávez ou o Evo [Morales] não são perfeitos, mas temos que começar de algum ponto”.
União da América para somar
Com uma fala mais contida e didática, Cavalcante disse que não achava que os governos de esquerda estavam todos corretos, mas que eles estavam caminhando para algum lugar, enquanto que o Brasil continua longe de chegar à revolução. Para ele, agora é a hora de Chávez e Morales reconhecerem o Psol e não o PT como o partido da mudança e da revolução e de juntar forças para se conseguir “um outro mundo possível”. “Antes de evitar os erros cometidos por eles, temos que fazer é a revolução”.
Ele falou ainda sobre a crise econômica, falando que não podemos esperar acontecer o pior. Para ele, os economistas citam a crise de 29, mas essa não teve os mesmos efeitos a curto prazo. “O povo precisa dar uma resposta a altura, ou teremos uma saída violenta e de fome”. A comparação com o crack na Bolsa de Valores de NY em 29 não parou por aí. “Não podemos esquecer que, sem a união da esquerda, a crise não teve um final positivo. O que tivemos foi o stalinismo e o nazismo”.
Para ele, Equador, Bolívia e Venezuela são países com governos que estão atuando de forma anti-imperialista. E que isso é extremamente bom. “A derrota da Revolução Bolivariana, hoje, seria a derrota também dos movimentos sociais de esquerda no Brasil”. A luta, para ele, tem que ser internacionalizada. Além disso, não existe socialismo em um país. Ou o socialismo se faz de forma mundial (ou pelo menos na maioria dos países), ou ele não será pleno e, mais uma vez, não sobreviverá.




